Tissot PRX 1978: a história do relógio que ele copia
O relógio de 1978 não se chamava PRX, não era automático e foi esquecido por quarenta anos. Quase tudo que se conta sobre ele está pela metade.
O PRX é o relógio de entrada mais copiado em conversa de internet, e a história dele circula pela metade, com uma parte inventada no meio.
Vale contar inteira, porque ela explica escolhas de projeto que parecem arbitrárias.
Ele nasceu como Seastar
O relógio de 1978 não se chamava PRX. Ele saiu com o nome Seastar, que era e continua sendo uma linha da Tissot.
O nome PRX veio depois, registrado pela marca para identificar aquele desenho específico. Ou seja, o batismo é retroativo.
O que ele tinha em 1978, segundo a história da linha reunida pela Oracle of Time:
- caixa de barril chata, com facetas afiadas e bisel largo
- pulseira integrada de elos largos e planos, saindo direto da caixa
- mostrador azul escovado, com hora e data e nada mais
- movimento a quartzo
Guarde a última linha. O PRX original era um relógio a quartzo, e isso não é detalhe menor.
Em 1978, quartzo não era sinônimo de barato. Era a tecnologia nova e cara, a mesma que tinha acabado de virar a indústria suíça do avesso. Colocar quartzo num esportivo de aço era jogar no time do futuro.
O que significa PRX
As três letras não são iniciais de uma palavra. São três coisas separadas.
| Letra | O que quer dizer |
|---|---|
| P | Precise |
| R | Robust |
| X | o algarismo romano de 10, de 10 bar de água |
Dez bar são 100 metros, que é exatamente a resistência à água que a linha mantém até hoje, quase cinquenta anos depois.
É o tipo de nome que só faz sentido quando alguém explica, e é por isso que quase ninguém sabe.

Por que 1978 é o ano de todos eles
O PRX não apareceu num vácuo. Ele é um dos muitos relógios que responderam a uma mesma ideia que dominou a década.
Em 1972 saiu o Audemars Piguet Royal Oak. Em 1976, o Patek Philippe Nautilus. Os dois eram relógios de aço, esportivos, com caixa achatada e pulseira integrada sem alças, e os dois custavam mais que relógios de ouro da mesma marca.
O que eles fizeram foi criar uma categoria: o esportivo de luxo em aço. E toda a indústria correu atrás.
O Seastar de 1978 é a resposta da Tissot a essa categoria, numa faixa de preço muito menor. Não é cópia disfarçada, é participação num movimento que envolveu dezenas de marcas.
Isso explica por que o PRX de hoje ainda parece com peças que custam vinte vezes mais. Eles vêm da mesma ideia, e não um do outro.
Os quarenta anos de sumiço
Aqui está a parte que quase nenhum texto conta.
O relógio não virou clássico na época. Ele saiu, vendeu, e desapareceu junto com boa parte da produção a quartzo dos anos 1970 e 1980.
O motivo é simples e um pouco cruel. Colecionador de relógio, por décadas, tratou quartzo como não sendo relógio de verdade. Peças mecânicas do mesmo período foram guardadas e valorizadas, e as de quartzo foram para a gaveta.
O PRX passou quarenta anos esquecido, inclusive dentro da própria Tissot.
Isso tem uma consequência prática hoje: quase não existe mercado de vintage do modelo. Não há livro de referência, não há comunidade grande de colecionador, e peça em bom estado é achado de sorte, não de busca.
A volta em 2021 foi com quartzo
Este detalhe é o mais irônico da história inteira.
Quando a Tissot decidiu ressuscitar o desenho, em fevereiro de 2021, ela lançou primeiro a versão a quartzo, com o calibre suíço ETA F06.115, e só depois veio a automática.
Foi uma escolha coerente com a origem, e ela deu certo. O quartzo vendeu, criou demanda, e abriu caminho para o Powermatic 80 de 80 horas que hoje domina a conversa.
A caixa foi atualizada para 40 mm, tamanho pensado para o gosto atual e maior que o do relógio de 1978.

Vale registrar isso com clareza porque é onde mais se erra: o PRX de 40 mm não é a proporção histórica. Ele é a versão moderna e ampliada.
Os tamanhos menores da linha estão mais perto do que existia, e a comparação entre eles está em PRX 35, 38 ou 40.
O que mudou do original para o de hoje
| Seastar de 1978 | PRX de hoje | |
|---|---|---|
| Nome de fábrica | Seastar | PRX |
| Movimento de lançamento | quartzo | quartzo, depois automático |
| Caixa | barril chato, menor que 40 mm | barril chato de 35, 38 ou 40 mm |
| Pulseira | integrada, elos largos | integrada, elos largos |
| Água | 10 bar | 10 bar |
| Mostrador | azul escovado | quadriculado, em várias cores |
Repare no que não mudou: o formato da caixa, a pulseira integrada e os dez bar de água. As três coisas que definem o relógio continuam iguais.
O que mudou foi tamanho, mostrador e a opção de motor. E o mostrador quadriculado, que hoje é a assinatura visual da linha, é uma criação da fase moderna.
Por que a pulseira integrada é difícil
Vale entender, porque explica por que a categoria demorou tanto a chegar em preço baixo.
Num relógio normal, a caixa e a pulseira são projetos separados. A caixa tem alças, a pulseira tem uma ponta reta, e uma barra une as duas. Se sobrar meio milímetro de folga, ninguém vê.
Na pulseira integrada não existe folga aceitável. O primeiro elo tem que casar com o contorno da caixa em curva, em acabamento e em altura, e qualquer imprecisão vira um vão visível bem no meio da peça.
Isso significa ferramental específico, tolerância apertada e nenhuma economia de escala com outros modelos da fábrica. É caro, e é por isso que a categoria ficou quarenta anos restrita ao topo do mercado.
O que a Tissot fez em 2021 foi levar essa construção para uma faixa em que ela não existia. É esse o feito, mais do que o desenho em si.
Também é a razão de o PRX não aceitar pulseira de terceiro sem estragar a junção. Você compra o relógio aceitando a pulseira dele, e isso é vantagem e prisão ao mesmo tempo.
Perguntas frequentes
O PRX original de 1978 era automático?
Não. Ele saiu com movimento a quartzo, que era a tecnologia de ponta e cara na época. A versão automática moderna é uma adição de 2021 em diante.
O PRX é uma cópia do Royal Oak?
Não diretamente. Os dois vêm da mesma onda de esportivos de luxo em aço com pulseira integrada que dominou os anos 1970, e o Royal Oak é o que abriu essa onda em 1972.
Vale comprar um Seastar de 1978 original?
É item de colecionador, com pouca oferta e estado muito variável. Movimento de quartzo antigo é difícil de reparar por falta de peça, e isso pesa mais que o preço.
O que significa a sigla PRX?
Precise, Robust e o algarismo romano dez, que se refere aos 10 bar de resistência à água. Cem metros, que a linha mantém até hoje.
Por que o PRX ficou popular só agora?
Porque a categoria voltou à moda e porque a Tissot acertou o preço. Um esportivo de aço com pulseira integrada e acabamento decente custava muito mais até o PRX chegar.
O que é o mostrador quadriculado, tecnicamente?
É um padrão gravado ou estampado no metal do mostrador, com relevo real. Ele muda de tom conforme a luz bate, e por isso a mesma cor parece diferente em ambientes diferentes. O caso mais evidente é o mostrador ice blue.
O PRX de hoje ainda tem versão a quartzo?
Tem, e ela custa quase metade da automática. Muito anúncio de preço baixo é essa versão sem dizer, e a diferença está em PRX quartzo ou automático.
O mostrador quadriculado é do original?
Não. O de 1978 tinha mostrador azul escovado. A textura quadriculada é da fase moderna e virou a assinatura visual da linha.
O que fica
A história do PRX é uma história de sorte e de timing, e não de sobrevivência heroica.
Ele foi um bom relógio numa boa década, sumiu porque quartzo caiu em desgraça, e voltou porque a categoria dele virou moda de novo quarenta anos depois.
Nada disso muda o relógio que você compra hoje. Muda como você lê a ficha dele: o formato da caixa e a pulseira integrada são heranças reais, o tamanho de 40 mm é escolha atual, e o quartzo não é a versão inferior. É a versão original.
A decisão entre os dois motores está em PRX quartzo ou automático.