Quanto custa manter um relógio mecânico por 10 anos
A despesa que domina a década não é a revisão. É a diferença entre o que você pagou e o que o relógio devolve.
Todo mundo pergunta quanto custa o relógio. Quase ninguém pergunta quanto custa ficar com ele.
A conta de dez anos tem quatro linhas, e a ordem de tamanho delas surpreende a maioria das pessoas.
As quatro linhas da conta
| Linha | Frequência em 10 anos | Peso |
|---|---|---|
| Depreciação | uma vez, no primeiro dia | a maior de todas |
| Revisão completa | 1 a 2 vezes | a segunda |
| Pulseira | couro a cada 2 anos, aço nunca | pequena |
| Imprevisto | cristal, coroa, vedação | variável |
Repare que a linha de cima acontece uma vez só, e ainda assim domina.
É por isso que a conta de manutenção que circula na internet costuma estar errada: ela soma serviço e esquece o que aconteceu no instante em que a peça saiu da loja.
A linha que ninguém soma
Um relógio novo vira usado no mesmo instante, e essa transição é a maior despesa da vida da peça.
Um automático de entrada devolve algo entre metade e dois terços do que custou quando você for revender, e essa perda já está paga no primeiro dia. A lógica inteira está em relógio é investimento.
Escrito em dinheiro, num relógio de R$ 6.936 como o Tissot PRX Powermatic 80 na New Store, a perda fica entre R$ 2.300 e R$ 3.500.
Nenhuma revisão chega perto disso. E o detalhe cruel é que essa é a única linha da conta que você não pode reduzir depois, porque ela é decidida na hora da compra.

A revisão, e por que não damos um número
Você vai ver muito texto cravando um valor de revisão. A gente não crava, e o motivo é honesto.
O preço varia demais. Muda por marca, por calibre, por cidade e por oficina, e muda se a peça vai para a assistência oficial ou para um relojoeiro independente. Um número único aqui seria chute com cara de dado.
O que é estável é o resto:
O intervalo. Uma revisão completa a cada cinco a sete anos, então em dez anos você faz uma ou duas. O que ela envolve está em quanto custa revisar um relógio.
A ordem de grandeza. Revisão completa é o serviço mais caro do uso normal, e ainda assim é uma fração do preço do relógio.
O jeito de descobrir o seu número. Ligue para duas relojoarias da sua cidade com a referência e o calibre na mão e peça a faixa. Leva dez minutos e resolve.
Faça isso antes de comprar, não cinco anos depois. É a diferença entre uma despesa planejada e um susto.
A conta fechada
Juntando as linhas para três perfis reais, com preço de balcão brasileiro.
| Dez anos | Seiko 5 Sports | Tissot PRX | Citizen Tsuyosa |
|---|---|---|---|
| Compra | R$ 3.264 | R$ 6.936 | R$ 3.468 |
| Revisões | 1 a 2, baratas | 1 a 2, mais caras | 1 a 2, baratas |
| Peça de reposição | comum | importada | comum |
| Volta na revenda | pouco | mais que os outros | pouco |
A leitura útil não é qual coluna é menor. É que as duas linhas de baixo compensam parte da de cima: o suíço custa o dobro e devolve mais, e o japonês custa menos e devolve quase nada.
Na prática as três colunas terminam mais perto do que a etiqueta sugere, e a diferença de dez anos é bem menor que a diferença de vitrine.
A conta que faz sentido de verdade
Existe uma que resolve melhor que todas as anteriores, e ela é simples.
Custo por uso. Pegue o preço, subtraia o que espera recuperar, some a revisão e divida pelos dias em que o relógio vai estar no seu pulso.
Um relógio de R$ 6.936 usado quatro vezes por semana durante dez anos dá cerca de dois mil usos. Mesmo somando uma revisão e não recuperando nada na revenda, isso fica em torno de quatro reais por dia.
Agora faça a mesma conta com um relógio que você usa uma vez por mês. São 120 usos, e o custo por uso multiplica por dezesseis.
O que encarece um relógio não é o preço. É ele ficar na gaveta.

A quinta linha, que não é dinheiro
Existe uma despesa que não aparece em planilha nenhuma e que decide se o relógio vai ser usado: a energia.
Automático depende de você. O manual da Citizen para a família 82xx dá o número: cerca de 42 horas de reserva, e cerca de quarenta voltas da coroa para encher a mola do zero. A ficha oficial do calibre 4R36 da Seiko fica em 41 horas.
Traduzindo: tirou o relógio na sexta à noite, na segunda de manhã ele parou. Você vai reacertar hora e data toda semana.
Movimento de 80 horas resolve isso, e é o que a faixa suíça de entrada passou a entregar. Quem alterna entre dois relógios sente essa linha mais do que sente a revisão.
Por que isso é custo: relógio que dá trabalho toda segunda-feira é relógio que fica na gaveta, e relógio na gaveta é a pior conta de todas, como a seção anterior mostrou.
Como baixar cada linha
Uma jogada por linha, em ordem de impacto.
Depreciação: compre usado. O desconto da primeira revenda já foi pago por outra pessoa, e mecanicamente é o mesmo relógio. É de longe a jogada que mais muda o resultado, e o roteiro de conferência está em o que checar antes de comprar relógio usado.
Revisão: não adie sem motivo. Passar muito do prazo troca uma revisão de lubrificação por um conserto de peça gasta, e essa conta é outra.
Pulseira: prefira aço. Bracelete de metal atravessa a década inteira, e couro de uso diário pede troca a cada dois anos. É pouco dinheiro por vez e é recorrente.
Imprevisto: guarde caixa e papéis. Custa zero, e na hora da revenda vale bastante. É a única linha da conta que melhora só por você não jogar nada fora.
Perguntas frequentes
Relógio automático dá muito trabalho?
Menos do que parece. São uma ou duas revisões em dez anos e nenhuma manutenção diária. Quartzo pede pilha a cada dois ou três anos, num serviço bem mais barato.
Vale a pena fazer revisão num relógio barato?
Depende da conta. Se a revisão custa uma parte grande do preço da peça, muita gente prefere usar até parar e trocar. Em relógio de faixa média, revisar quase sempre compensa.
Posso adiar a revisão?
Pode, e o custo do adiamento não é linear. Um ou dois anos costuma passar sem consequência, e cinco anos de atraso transformam lubrificação em troca de peça.
O relógio precisa de enrolador?
Não precisa. Enrolador só faz sentido para quem tem vários automáticos com calendário complicado. Para um relógio único, acertar na mão é mais simples e mais barato.
Qual custa menos em dez anos, japonês ou suíço?
O japonês, em quase todo cenário. A diferença é menor do que a etiqueta sugere, porque o suíço devolve mais na revenda e as revisões dos dois cabem no mesmo intervalo.
Teste de estanqueidade é gasto separado?
Costuma ser, e é barato. Vale fazer a cada dois anos se você entra na água, mesmo sem revisão completa, porque a vedação envelhece sozinha.
Guardar o relógio parado por anos estraga?
Estraga com o tempo, e por um motivo simples: o óleo resseca e migra mesmo sem o relógio andar. Peça guardada por muitos anos costuma pedir revisão antes de voltar ao uso, então parar não é a mesma coisa que preservar.
O que fica
A conta de dez anos de um relógio mecânico não é assustadora. Ela é mal distribuída.
A maior parte dela acontece antes de você usar o relógio pela primeira vez, e a parte que todo mundo teme, a revisão, é a segunda e é planejável com um telefonema.
Quem faz esse telefonema antes de comprar quase nunca se arrepende. Quem descobre o número cinco anos depois, às vezes sim, e o mapa das faixas de preço está em quanto gastar no primeiro relógio suíço.