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Citizen Eco-Drive: o relógio que nunca precisa de pilha

Maison Garde & Co. 8 min de leitura
Citizen de aço com mostrador claro sob luz de janela, sobre madeira escura

A frase da marca é “nunca precisa de pilha”. Ela é quase toda verdade, e o “quase” é o que este texto explica.

Eco-Drive é a tecnologia mais bem-sucedida do relógio japonês e a que mais gera mal-entendido, porque a frase que a vende é boa demais para não ter asterisco.

Ela tem um. É pequeno, é honesto, e vale conhecer antes de comprar.

Como o Eco-Drive funciona

A ideia é simples e a execução é o que impressiona.

Debaixo do mostrador existe uma célula fotovoltaica, do mesmo princípio de um painel solar. Ela converte luz em eletricidade, e essa eletricidade carrega uma célula recarregável dentro do relógio, que alimenta um movimento a quartzo comum.

Três coisas que separam isso do relógio solar dos anos 1970:

Ele aceita qualquer luz. Não precisa de sol. A ficha da própria Citizen diz que é alimentado por qualquer fonte de luz, e luz de escritório carrega, mais devagar.

O mostrador é opaco. A célula fica escondida sob um mostrador normal, o que resolveu o problema estético que matou os solares antigos.

Ele guarda carga. Cheio, o relógio atravessa meses no escuro, e muitos calibres têm modo de economia que para os ponteiros para durar ainda mais. O número exato varia por calibre e está na ficha de cada modelo.

A célula fica sob um mostrador normal. Foi isso que resolveu o problema dos solares antigos.
A célula fica sob um mostrador normal. Foi isso que resolveu o problema dos solares antigos.

Quanto custa

O modelo desta ficha, o BM8180-03E, tem tabela de US$ 295 no site da marca:

Citizen BM8180-03E
Caixa 37 mm
Movimento E101, Eco-Drive
Água 100 metros
Cristal mineral
Pilha nunca precisa trocar

Esse não é vendido por aqui, e é por isso que o preço dele saiu em dólar. O Eco-Drive mais direto de achar no Brasil é o Chandler BM8478-01L, que sai por R$ 2.958 na New Store, com o mesmo Eco-Drive, os mesmos 100 metros e dia e data no mostrador.

Para dar contexto na escada de preço brasileira:

Modelo Movimento Preço no Brasil
Citizen Chandler Eco-Drive Eco-Drive R$ 2.958
Orient Bambino F6724 automático R$ 2.754 a R$ 4.080
Seiko 5 Sports SRPD 4R36 automático R$ 3.264 a R$ 4.590
Tissot PRX Quartzo quartzo suíço R$ 4.386

Ele briga na base da lista, e é o único que não pede manutenção de energia nenhuma.

O que a promessa esconde

Aqui está o asterisco, e ele é justo.

“Nunca precisa de pilha” é verdade. Você nunca vai levar o relógio para trocar bateria, que é o serviço mais comum de relojoaria.

O que existe é uma célula recarregável, e ela não é eterna. Como toda célula recarregável, ela perde capacidade ao longo de muitos anos, e quando isso acontece o relógio passa a segurar carga por menos tempo.

Duas coisas tornam isso menos grave do que soa:

O prazo é longo. Estamos falando de mais de uma década de uso normal antes de qualquer sinal, o que é bem mais que o intervalo de revisão de um mecânico.

Ela é trocável. É serviço de assistência, não é o relógio virar lixo.

Ou seja: a frase da marca está certa no espírito. Você troca uma manutenção frequente e barata por uma raríssima e um pouco mais cara.

O segundo asterisco, este mais prático: o cristal do modelo desta ficha é mineral, não safira. Ele risca com o tempo, e o risco não sai. Está em safira, mineral ou acrílico.

Onde ele ganha do automático

Precisão. É quartzo, então erra segundos por mês, não por dia. Contra qualquer automático da faixa isso não é comparação, é goleada. As faixas estão em quantos segundos um relógio pode errar.

Não para nunca. Automático parado precisa de corda e acerto. Este fica meses na gaveta e volta andando quando você abre a cortina.

Não pede revisão de energia. Nem corda diária, nem troca de pilha, nem enrolador.

É mais fino. Sem rotor e sem mola, o movimento ocupa menos espaço.

Custa menos. É o mais barato da tabela acima.

Onde ele perde

Vale ser específico, porque a lista é curta e importa.

Não tem máquina. É a única desvantagem que importa de verdade, e ela é inteiramente subjetiva. Se o que te atrai em relógio é a mecânica, o Eco-Drive não vende isso e nunca vai vender.

O acabamento é de faixa de entrada. Cristal mineral, caixa simples. É honesto pelo preço e não compete com um suíço de R$ 6.936.

A revenda é fraca. Quartzo de entrada praticamente não tem mercado de usados. Compre para usar, não para revender.

O ponteiro pula. Um segundo por vez, como todo quartzo. Quem já se acostumou com o varrer do automático sente.

Sem rotor e sem mola. É mais fino, mais preciso e mais barato, e não tem máquina.
Sem rotor e sem mola. É mais fino, mais preciso e mais barato, e não tem máquina.

O que conferir antes de comprar

A linha Eco-Drive é enorme e vai de relógio de trezentos reais a peça de vários milhares. Quatro conferências separam a compra boa da decepção.

O cristal. Mineral ou safira muda o relógio depois de dois anos, e a diferença de preço entre as duas versões costuma ser pequena. É a conferência que mais rende.

A resistência à água. A linha vai de 30 a 200 metros. O que cada número permite está em 30, 50, 100 e 200 metros.

O calibre. O número que começa com E, J ou B identifica a geração e as funções. Modelos com rádio-sincronização e com GMT existem e custam mais.

O tamanho. A linha tem muita caixa acima de 42 mm, herança do gosto dos anos 2000. Confira a distância entre alças, não só o diâmetro.

Para quem faz sentido

Compre se você quer um relógio que funciona e pronto, dá o relógio de presente para quem não é do assunto, usa alternando com outros e cansou de reacertar, ou quer o menor custo de manutenção possível.

Não compre se o que te atrai é a mecânica. Nesse caso o Orient Bambino resolve por pouco mais, e o Seiko 5 também.

Existe um perfil em que ele é quase imbatível: o segundo relógio de quem já tem um mecânico. Você usa o mecânico quando quer, e o Eco-Drive fica na gaveta meses e está sempre certo quando você pega. Nenhum automático faz isso.

E existe o presente. Relógio que chega precisando de corda, acerto e manual começa mal, e é a discussão de automático ou corda manual.

Como ele se compara ao quartzo comum

A comparação mais justa não é com automático, é com o quartzo de pilha, que é o que ele veio substituir.

Quartzo de pilha Eco-Drive
Precisão segundos por mês segundos por mês
Energia pilha, troca a cada 2 ou 3 anos luz, sem troca
Parado na gaveta a pilha vaza com o tempo volta andando com luz
Risco de vazamento existe, e estraga o movimento não existe
Custo de manutenção baixo e recorrente quase zero

A linha do vazamento é a que mais gente ignora e a que mais mata relógio de gaveta. Pilha esquecida por anos vaza, e o líquido corrói o movimento por dentro até virar perda total.

O Eco-Drive elimina essa categoria inteira de problema. Para relógio que fica guardado entre usos, é a vantagem mais concreta da tecnologia.

Perguntas frequentes

O Eco-Drive precisa de sol?

Não. Ele carrega com qualquer luz, inclusive luz artificial de ambiente fechado. Sol direto só carrega mais rápido.

Quanto tempo dura no escuro?

Cheio, meses. O número exato varia por calibre e muitos modelos têm modo de economia que para os ponteiros para esticar ainda mais. Confira a ficha do modelo específico.

E se ele descarregar completamente?

Deixe numa janela por algumas horas e ele volta. Depois é só acertar a hora, e nada é danificado por ficar descarregado.

A célula recarregável pode ser trocada?

Pode, em assistência. É serviço raro, na casa de mais de uma década de uso, e bem menos frequente que a troca de pilha de um quartzo comum.

Eco-Drive é melhor que automático?

Em precisão e conveniência, sim, por larga margem. Em mecânica e em revenda, não. São compras diferentes e a pergunta certa é o que você quer do relógio.

Eco-Drive existe em relógio de mergulho?

Existe, e a linha tem modelos de 200 metros com coroa rosqueada e bisel giratório. A tecnologia de energia é independente da construção da caixa.

O mostrador escuro carrega menos?

Carrega, porque a célula fica sob o mostrador e recebe menos luz. Modelo de mostrador preto pede um pouco mais de exposição que um claro, e na prática a diferença raramente incomoda.

Vale a pena contra um quartzo suíço?

O suíço entrega acabamento melhor e o selo Swiss Made, e pede troca de pilha. O Eco-Drive entrega conveniência e custa menos. O suíço de entrada está mapeado em quanto gastar no primeiro relógio suíço.

Quem mais faz isso

Eco-Drive é o nome da Citizen, e a ideia não é exclusiva dela.

A Seiko tem o Solar, e a Casio tem o Tough Solar, que costuma vir junto com rádio-sincronização. O princípio é o mesmo em todos: célula sob o mostrador e célula recarregável no lugar da pilha.

O que separa a Citizen é escala e tempo de estrada. Ela lançou a tecnologia bem antes e apostou a linha inteira nela, e hoje é raro achar um Citizen que não seja Eco-Drive.

Isso importa na hora de comprar por dois motivos: a variedade de modelos é muito maior, e a assistência conhece a tecnologia.

O que fica

Eco-Drive resolve o problema mais chato do quartzo sem criar nenhum problema novo relevante.

A promessa da marca é honesta: você nunca vai trocar pilha. O que ela não diz nas letras grandes é que existe uma célula recarregável ali dentro, com vida longa e trocável em assistência.

Se você quer um relógio para não pensar nele, é uma das compras mais racionais da categoria inteira. Se você quer sentir uma máquina no pulso, nenhuma racionalidade aqui vai te convencer, e tudo bem.

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