Bulova Lunar Pilot: o relógio que foi à Lua no pulso errado
O relógio oficial da missão quebrou na segunda caminhada. O que salvou a terceira era um sobressalente particular, e é dele que este aqui descende.
Quase toda marca tem uma história de espaço, e quase toda é publicidade esticada.
Esta não é. Ela tem data, missão, nome do astronauta, o motivo pelo qual o relógio saiu do bolso e um preço de leilão que virou registro público.
A história, com fonte
Em 1971, um cronógrafo Bulova foi levado a bordo da Apollo 15, a quarta missão a pousar homens na Lua, pelo comandante David Scott. É o que registra a ficha da marca.
O detalhe que faz a história é o acidente. Durante a segunda saída de Scott na superfície lunar, o cristal do relógio oficial da missão, um Omega, se soltou.
Na terceira caminhada, ele usou o sobressalente que tinha levado por conta própria: o Bulova.
A mesma fonte registra a consequência: o Bulova Chronograph Model #88510/01 é o único relógio de propriedade particular que já foi usado na superfície lunar.
Em 2015 ele foi a leilão na RR Auction, em Boston, e vendeu por US$ 1,625 milhão, o que o coloca entre os artefatos de astronauta mais caros já vendidos.
Por que ele é único
Vale entender o que exatamente é raro aqui, porque não é “um Bulova foi à Lua”.
Todo o resto era equipamento da NASA. Os relógios das missões eram fornecidos e homologados pela agência. Esta peça não: era do astronauta, levada por decisão dele.
E parece ter sido um protótipo. A mesma ficha registra que a peça só foi revelada aos fãs da marca pelo próprio Scott em 2014, mais de quarenta anos depois.
Ou seja: não é um modelo de catálogo que por acaso subiu. É uma peça única, de um homem só, que virou a única exceção particular numa lista inteiramente institucional.

O que a reedição é de verdade
Aqui a honestidade importa, porque é onde a maioria dos textos vende gato por lebre.
A marca lançou uma edição de homenagem ao relógio lunar no começo de 2016, e a ficha é explícita sobre o que ela usa: um movimento de quartzo moderno de alta frequência.
Leia de novo. Não é mecânico. O original de 1971 era um cronógrafo de corda, e a reedição é quartzo.
Isso não é defeito escondido, é escolha de projeto, e ela tem lógica.
O quartzo de alta frequência da casa erra muito menos que qualquer cronógrafo mecânico da faixa, e o ponteiro varre em vez de pular. A tecnologia está explicada em o que é o Bulova Precisionist.
Para dar tamanho à diferença: um automático japonês de entrada declara faixas do tipo menos 35 a mais 45 segundos por dia, como a ficha oficial do calibre 4R36 da Seiko registra. O quartzo de alta frequência da Bulova trabalha em segundos por ano.
O que você está comprando é o desenho e a história, com um motor melhor em precisão e pior em romance que o original.
Quem espera abrir a caixa e encontrar mecânica vai se decepcionar, e a culpa disso é de quem vendeu sem dizer.
Quanto custa no Brasil
São três referências à venda hoje, e a faixa é estreita:
| Preço no Brasil | |
|---|---|
| Lunar Pilot Chrono preto | R$ 6.222 |
| Lunar Pilot cronógrafo branco | R$ 6.630 |
| O mais caro da linha | R$ 7.650 |
A água declarada é de 50 metros, o que é coerente com a peça: é um cronógrafo de herança, não um relógio de água. O que isso permite está em 30, 50, 100 e 200 metros.
Para dar contexto, é a linha mais cara da marca aqui, acima do Marine Star, que vai de R$ 3.672 a R$ 6.120.
O que pesa contra
Vale ser específico.
É grande. Cronógrafo de herança espacial não é peça discreta, e essa linha segue a proporção do original. Meça o pulso antes, e o método está em como medir o pulso.
É quartzo pelo preço de mecânico. Existe automático suíço por menos que os R$ 6.222 dele. Você está pagando pela história, e é legítimo desde que você saiba.
A revenda é fraca, como em toda a marca. A lógica está em relógio é investimento.

De quem é a marca hoje
Vale registrar, porque muda como a história é lida.
A Bulova foi comprada pela Citizen em 2008, e a ficha do grupo a lista ao lado de Frédérique Constant, Alpina, Arnold & Son e Angelus.
Ou seja: a marca que levou um relógio à Lua em 1971 é hoje uma casa japonesa. A história é americana e verdadeira, e a fábrica de hoje é outra.
Isso não tira nada do episódio de 1971, e evita a leitura ingênua de que comprar um Lunar Pilot é comprar continuidade industrial. A conta completa está em a Bulova é uma marca boa.
Para quem faz sentido
Compre se a história te move. Ela é real, tem fonte, tem data e tem número de leilão, e isso é raro no mercado de relógio.
Compre se você quer um cronógrafo preciso e não liga para mecânica. O quartzo de alta frequência entrega precisão que nenhum cronógrafo mecânico dessa faixa alcança.
Não compre se você quer mecânica. É a decepção mais comum com esta peça, e ela é evitável lendo a ficha antes.
Não compre se o pulso é fino. Não é um relógio contido, e nunca tentou ser.
O que ele não é
Vale fechar as portas erradas, porque esta peça atrai leitura equivocada dos dois lados.
Não é o relógio da NASA. O equipamento homologado da missão era outro, e ele está em toda foto oficial. O Bulova entrou por acidente e por decisão pessoal.
Não é um relógio raro. A reedição é produzida em série e está à venda em qualquer vitrine grande. O raro é a peça de 1971, e ela tem dono desde 2015.
Não é um cronógrafo mecânico de herança. Isso é o que a foto sugere e o que a ficha desmente, e é a decepção mais cara desta compra.
O que ele é: um cronógrafo de quartzo preciso, com o desenho de uma peça que tem uma das melhores histórias reais do século 20 no pulso de alguém.
Perguntas frequentes
O Bulova foi mesmo à Lua?
Foi. Um cronógrafo Bulova foi levado na Apollo 15 pelo comandante David Scott e usado na terceira caminhada lunar dele, depois que o cristal do relógio oficial se soltou na saída anterior.
O Lunar Pilot atual é o mesmo relógio?
Não. É uma edição de homenagem lançada em 2016, com movimento de quartzo de alta frequência. O original de 1971 era mecânico e é peça única.
Quanto valeu o original?
US$ 1,625 milhão, em leilão na RR Auction em Boston, em 2015. É um dos artefatos de astronauta mais caros já vendidos.
Por que ele é chamado de único?
Porque é o único relógio de propriedade particular que já foi usado na superfície lunar. Todos os outros eram equipamento fornecido pela agência espacial.
Ele é automático?
Não. A reedição usa quartzo, e é justamente o ponto que mais confunde comprador que vê o desenho de cronógrafo de época.
Vale como investimento?
Não. A reedição é produzida em série e a revenda da marca é fraca. O que valorizou foi a peça única de 1971, e ela já tem dono.
O que fica
O Lunar Pilot é o raro caso em que a história de marketing é menor que a história de verdade.
Um homem levou o próprio relógio para a Lua por precaução, o equipamento oficial falhou, e o sobressalente virou o único particular a pisar lá. Quarenta e quatro anos depois ele valeu mais de um milhão e meio de dólares.
O que está à venda hoje não é aquele relógio, e não finge ser. É o desenho dele com um motor moderno, por R$ 6.222. Quem compra sabendo disso compra bem.