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Relógio de piloto: o que é, e por que existem dois mostradores

Maison Garde & Co. 7 min de leitura
Relógio de piloto de mostrador preto com triângulo às 12 sobre couro escuro

Todo relógio de piloto que você já viu descende de um documento militar, e a diferença entre os dois mostradores dele não é estética.

Existe uma família inteira de relógio que quase todo mundo reconhece de vista e quase ninguém sabe nomear.

Mostrador preto, números grandes, um triângulo no lugar do 12. Ele tem nome, tem data de nascimento e tem uma especificação escrita por trás.

De onde o relógio de piloto veio

Ele não nasceu numa mesa de design. Nasceu de uma exigência de navegação aérea.

Em 1935, quando a Alemanha reconstituiu a força aérea, veio junto a especificação de um relógio de observação, segundo o levantamento da Monochrome sobre a história do relógio de piloto.

O nome alemão é Beobachtungsuhr, ou relógio de observação, abreviado como B-Uhr. O apelido que pegou no mercado foi Flieger, que quer dizer aviador.

Ele não era do piloto, e sim do navegador. A função era guardar a hora exata de referência para calcular posição, num tempo em que errar o relógio significava errar o país.

Cinco fabricantes produziram sob essa especificação: A. Lange & Söhne, Wempe, Lacher & Company (Laco) e Walter Storz (Stowa), na Alemanha, mais a suíça IWC.

O que a especificação exigia

Aqui está o que explica o desenho, e nada disso era gosto.

Cinquenta e cinco milímetros de caixa. Não é erro de digitação. Ele era do tamanho de um relógio de bolso porque usava movimento de relógio de bolso.

Coroa gigante, em diamante ou cebola. Ela precisava ser operada com luva, a sete mil metros de altitude e vinte graus negativos.

Ponteiro de segundos que para. Ao puxar a coroa o relógio congela, o que permite sincronizar vários relógios no mesmo segundo antes de uma missão.

Espiral Breguet e núcleo de ferro. A gaiola de ferro doce protegia o movimento do campo magnético dos instrumentos da cabine.

Regulagem a padrão de cronômetro. Não era relógio bonito, era instrumento de medida com tolerância apertada.

Pulseira longuíssima com rebite duplo. Ela precisava dar a volta por cima da jaqueta de voo forrada.

Repare que cada item da lista resolve um problema físico. É por isso que o desenho envelheceu tão bem: nada nele era enfeite.

Cinquenta e cinco milímetros e coroa de cebola. Era operado com luva.
Cinquenta e cinco milímetros e coroa de cebola. Era operado com luva.

Tipo A e tipo B, a diferença real

Esta é a parte que decide a compra hoje, e ela é simples quando alguém explica.

Existem dois mostradores oficiais, e eles não são variação de estilo. São duas gerações da mesma especificação.

Tipo A Tipo B
Ano 1940 1941
Anel externo horas, de 1 a 11 minutos, de 5 a 55
Anel interno não tem horas, de 1 a 12
Marca das 12 triângulo com dois pontos triângulo
Leitura primária a hora o minuto

O tipo A é o original e o mais limpo. Ele tem só o anel externo, com os números das horas grandes e um triângulo com dois pontos no lugar do 12.

O tipo B veio um ano depois e inverteu a hierarquia. Os números grandes de fora passaram a ser minutos, e as horas foram para um anel menor no centro.

A lógica é de navegação: quem calcula posição precisa do minuto exato mais que da hora. O tipo B otimiza para a leitura que o navegador realmente fazia.

Na prática, para você hoje: o tipo A é mais fácil de ler no dia a dia e o tipo B é mais bonito para quem gosta de mostrador cheio. Quem quer ver a hora de relance escolhe o A.

O que sobrou disso hoje

Duas coisas atravessaram, e uma delas é problema.

O desenho sobreviveu inteiro. Mostrador preto fosco, números árabes enormes, lume creme e o triângulo às 12 continuam ali, em caixas de 36 a 45 mm em vez de 55.

A especificação não sobreviveu. Hoje ninguém é obrigado a nada. Existe relógio com cara de Flieger e 30 metros de água, sem coroa que pare o ponteiro e sem proteção magnética.

Ou seja: o visual virou gênero e a engenharia virou opcional. Isso não é escândalo, é como quase toda categoria evoluiu, e vale saber ao comparar preço.

Duas das cinco casas originais continuam fazendo o produto: Laco e Stowa. A Laco foi fundada em 1925 em Pforzheim e a ficha dela no Brasil está em Laco vale a pena.

O outro relógio de aviação, que não é este

Vale separar, porque os dois vivem na mesma prateleira e não têm nada a ver.

O Flieger é relógio de navegação: mostrador limpo, leitura de relance, nenhuma complicação. Ele guarda a hora e sai da frente.

Existe uma segunda escola de relógio de aviação, a de régua de cálculo. Nela o bisel carrega escalas logarítmicas que resolvem consumo de combustível, conversão de unidade e velocidade média, girando um aro contra o outro.

São dois problemas diferentes. Um guarda o tempo, o outro faz conta.

A escola da régua está viva na linha Promaster da Citizen, nas famílias Sky e Navihawk. Se você viu um relógio de aviação com o aro cheio de número minúsculo, era essa, não o Flieger.

Confundir as duas é o erro mais comum de quem entra na categoria, porque as duas são vendidas como “relógio de piloto” e uma é dez vezes mais simples de ler que a outra.

O que conferir antes de comprar

Quatro conferências, e a primeira separa o gênero do original.

Confira o tipo do mostrador. A e B leem de formas diferentes. Se você não sabe qual está olhando, conte os anéis: um anel só é tipo A.

Confira o tamanho. Cinquenta e cinco milímetros era para o navegador. A versão moderna que veste é de 36 a 42, e o método está em como medir o pulso.

Confira a água. Muito Flieger moderno marca 50 metros ou menos, porque o original nunca precisou de água. A régua está em 30, 50, 100 e 200 metros.

Confira se o ponteiro para. Era exigência da especificação original e hoje depende do movimento. Vários calibres baratos não fazem isso, como mostra Seiko 5 Sports vale a pena.

Um anel só é tipo A. Dois anéis é tipo B.
Um anel só é tipo A. Dois anéis é tipo B.

Qual comprar

Compre um tipo A se você quer ler a hora de relance. É o mostrador mais limpo e o mais funcional para uso civil.

Compre um tipo B se o desenho é o que te trouxe. Ele é mais raro na rua e mais interessante de olhar.

Compre de uma casa original se a história importa. Laco e Stowa são as duas que produziram sob a especificação e continuam produzindo.

Não compre pelo visual apenas se você precisa de água. O gênero inteiro nasceu sem essa preocupação e muita peça moderna mantém a limitação.

Não compre 55 mm. As reedições em tamanho original existem e são peça de coleção, não relógio de usar.

O tamanho que funciona hoje anda perto de 40 mm. A Stowa Verus 40 na Monochrome traz 40 mm por 10,2 mm com Sellita dentro, por EUR 950. É a régua da categoria.

Quinze milímetros a menos que o original, e ainda assim ele lê igual, porque o mostrador nunca dependeu do tamanho para funcionar.

Perguntas frequentes

O que quer dizer Flieger?

É a palavra alemã para aviador. O nome técnico do relógio original é Beobachtungsuhr, ou relógio de observação, abreviado como B-Uhr.

Qual a diferença entre tipo A e tipo B?

No tipo A o anel externo traz as horas. No tipo B o anel externo traz os minutos e as horas ficam num anel menor no centro. O tipo A é de 1940 e o B de 1941.

Por que os originais eram tão grandes?

Porque usavam movimento de relógio de bolso e precisavam ser lidos de relance na cabine. Eram 55 mm, presos por cima da jaqueta de voo.

O relógio de piloto serve para nadar?

Depende inteiramente do modelo. O original nunca foi feito para água, e muito Flieger moderno marca 50 metros ou menos.

Quais marcas fizeram os originais?

A. Lange & Söhne, Wempe, Laco e Stowa na Alemanha, mais a suíça IWC. Duas delas ainda fabricam relógio de piloto hoje.

Preciso de um relógio de piloto para pilotar?

Não. A função de navegação foi substituída por instrumento de bordo há décadas. Hoje é uma escolha de desenho, e é uma boa.

O que fica

O relógio de piloto é o caso mais claro de um desenho que envelheceu bem porque nunca foi sobre estética.

Cada linha dele resolvia um problema real: a coroa grande era para a luva, o triângulo era para achar as 12 sem pensar, o ponteiro que para era para sincronizar antes de decolar.

O que mudou é que hoje nada disso é obrigatório. Você pode comprar a aparência inteira sem levar nenhuma das engenharias, e o preço às vezes nem avisa.

Saber ler o mostrador e conferir a ficha é o que separa comprar um instrumento de comprar uma fantasia dele.

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