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Cronômetro certificado: o que o selo COSC garante de verdade

Maison Garde & Co. 6 min de leitura
Movimento de relógio sobre bancada de laboratório com aparelho de medição ao lado

O selo certifica o movimento, e não o relógio que você compra. Essa diferença de uma palavra muda tudo o que ele garante.

Existe uma palavra que aparece no mostrador de relógio caro, custa dinheiro de verdade e quase ninguém sabe ler.

Ela também é confundida o tempo todo com outra palavra parecida, que significa uma coisa completamente diferente.

O que a palavra significa

Cronômetro é um certificado de precisão. Não é uma função, não é um tipo de relógio e não tem botão nenhum.

O órgão que certifica na Suíça é o COSC, o controle oficial suíço de cronômetros. Ele recebe movimentos de qualquer marca, testa e aprova ou reprova.

Não confunda com cronógrafo, que é o relógio com botão que mede intervalo. Um cronógrafo pode atrasar meio minuto por dia, e um cronômetro pode não medir intervalo nenhum.

O levantamento da Monochrome sobre cronógrafos explica a outra palavra, e a ficha completa dela está em cronógrafo vale a pena.

Os dois nomes vêm do mesmo grego e é aí que mora a confusão. Um escreve o tempo, o outro mede o tempo.

O teste, critério por critério

Aqui está o que o selo cobra, e é mais duro do que parece.

Segundo a página oficial do COSC, cada movimento passa por um ensaio de 12 a 20 dias, sendo 15 o padrão para mecânico.

O ensaio
Duração 15 dias
Posições 5: 6h, 3h, 9h, mostrador acima e abaixo
Temperaturas 3: 8°C, 23°C e 38°C
Marcha média diária menos 4 a mais 6 segundos
Critérios no total 7

Os outros seis critérios medem consistência, não só a média: variação por temperatura, retomada de marcha, maior diferença entre marchas, diferença entre posição horizontal e vertical, maior variação e variação média.

Ou seja, não basta o relógio andar certo na média. Ele tem que andar parecido em qualquer posição e em qualquer temperatura, dia após dia.

Para dar tamanho ao número: um automático suíço comum não certificado trabalha numa faixa bem mais larga, e um japonês de entrada declara de menos 35 a mais 45 segundos por dia. A régua está em quantos segundos um relógio pode errar.

Quinze dias, cinco posições, três temperaturas. É ensaio, não é cálculo.
Quinze dias, cinco posições, três temperaturas. É ensaio, não é cálculo.

O detalhe que quase ninguém sabe

Esta é a informação mais útil deste post, e ela está escrita na própria fonte.

O COSC certifica o movimento, não o relógio completo. Os movimentos chegam para o ensaio em barras de cinco, sem caixa, sem mostrador e sem ponteiro.

Isso tem uma consequência prática desconfortável: o movimento aprovado ainda precisa ser encaixotado, e o encaixotamento mexe no comportamento dele.

Ponteiro pesado, mostrador mal ajustado ou uma caixa que aperta o movimento podem tirar a peça da faixa depois do selo. O certificado é verdadeiro sobre o que foi testado, e o que foi testado não é exatamente o que chegou no seu pulso.

Isso não quer dizer que o selo é enfeite. Um movimento que passa é objetivamente melhor regulado que um que nem foi enviado.

Quer dizer que ele não é garantia de que o seu relógio anda dentro da faixa hoje. É garantia de que o motor dele saiu de fábrica capaz disso.

O que está mudando

Vale registrar, porque o padrão acabou de ficar mais duro.

O COSC lançou uma certificação superior, a Excellence, que aperta a marcha para menos 2 a mais 4 segundos por dia e acrescenta três coisas que o teste antigo não olhava:

Desgaste simulado, ou seja, o ensaio passa a imitar uso real em vez de só bancada. Resistência magnética até 200 gauss. E verificação da reserva de marcha declarada.

Os dois primeiros itens atacam justamente o que mais tira relógio do prumo no dia a dia. Magnetismo é o vilão silencioso, e o que resolve isso está nas espirais de silício e Nivachron, assunto de Longines vale a pena.

Quanto custa no Brasil

Levantamos o catálogo inteiro. São 19 referências com certificação à venda aqui, de R$ 8.568 a R$ 19.278.

Marca Refs
Mido 12
Tissot 4
Frederique Constant 3

A concentração diz alguma coisa: a Mido sozinha tem quase dois terços das certificadas do catálogo, e o panorama dela está em Mido vale a pena.

Repare no piso. Oito mil e quinhentos reais é onde a certificação começa a aparecer, e abaixo disso ela praticamente não existe no mercado brasileiro.

Isso não significa que relógio abaixo disso anda mal. Significa que ninguém pagou o ensaio, porque o ensaio custa e o custo entra no preço.

O selo certifica o movimento, e não o relógio que chega em você.
O selo certifica o movimento, e não o relógio que chega em você.

O que o selo não garante

Vale listar, porque é onde a expectativa desanda.

Não garante durabilidade. Precisão e robustez são coisas diferentes. Um cronômetro não aguenta mais pancada que um não certificado.

Não garante água. Nenhum critério do ensaio olha estanqueidade.

Não garante que continue assim. A regulagem se desfaz com o tempo, com choque e com magnetismo. Sem revisão, o selo envelhece junto com o relógio.

Não garante acabamento. O ensaio mede comportamento, não beleza. Movimento feio passa igual.

Não garante calibre exclusivo. Movimento de volume alto passa no ensaio como qualquer outro, e a maior parte dos certificados do catálogo brasileiro roda em cima do mesmo tronco ETA de sempre, assunto de o motor suíço dentro de meio mercado.

E existe o outro lado, honesto: um relógio não certificado pode andar melhor que um certificado. O selo diz que a peça foi medida e passou, não que ela é a melhor da prateleira.

Vale pagar por isso

Vale se você usa o relógio todo dia e acertar hora te irrita. Menos 4 a mais 6 é a diferença entre acertar uma vez por mês e acertar uma vez por semana.

Vale se você quer saber que alguém mediu. Certificação é a única forma de sair do “a marca diz que” e entrar no “foi testado”.

Não vale se você tem vários relógios. Um automático que passa a semana na gaveta vai estar parado, e precisão nenhuma resolve isso.

Não vale se o objetivo é precisão de verdade. Qualquer quartzo comum erra menos que qualquer cronômetro mecânico, por uma fração do preço.

Essa última é a ironia da categoria e ela merece ser dita com todas as letras.

Perguntas frequentes

O que quer dizer cronômetro num relógio?

Que o movimento foi testado por um órgão independente e aprovado dentro de uma faixa de precisão. Na Suíça o órgão é o COSC.

Qual a tolerância de um cronômetro COSC?

Menos 4 a mais 6 segundos por dia na marcha média, medida ao longo de 15 dias em cinco posições e três temperaturas.

Cronômetro é a mesma coisa que cronógrafo?

Não. Cronômetro é certificado de precisão. Cronógrafo é a função de medir intervalo com botões. Existem relógios que são os dois.

O COSC testa o relógio inteiro?

Não. Ele testa o movimento, que chega sem caixa e sem mostrador. O encaixotamento depois pode mudar o comportamento da peça.

Quanto custa um cronômetro certificado no Brasil?

A faixa começa perto de R$ 8.568 e vai até R$ 19.278, nas 19 referências à venda aqui. A Mido concentra 12 delas.

Um relógio sem selo anda pior?

Não necessariamente. Muito relógio não certificado anda dentro da faixa. O que falta é alguém ter medido e atestado.

O que fica

O selo de cronômetro é uma das poucas coisas na relojoaria que é medida em vez de afirmada, e só por isso já vale existir.

Ele garante que o motor do seu relógio passou por 15 dias de ensaio em cinco posições e três temperaturas, e saiu de lá dentro de uma faixa apertada.

O que ele não garante é que a peça que chegou em você continue ali, porque quem foi testado foi o movimento nu, antes da caixa.

E vale guardar a ironia inteira: o relógio de quartzo mais barato deste blog erra menos que qualquer cronômetro mecânico.

Quem compra o selo não está comprando precisão absoluta. Está comprando a melhor precisão possível dentro de uma escolha que já foi feita por outro motivo.

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