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Cronógrafo vale a pena? A conta que ninguém faz antes

Maison Garde & Co. 7 min de leitura
Mostrador de cronógrafo com três contadores e botões laterais sobre couro escuro

Duzentas e cinquenta e seis referências, e o mecânico mais barato custa três vezes o de quartzo. A diferença é real, e ela não está no que o relógio faz.

Cronógrafo é a complicação mais vendida da relojoaria e a menos usada de todas.

Também é a que tem o maior abismo de preço entre duas peças que fazem exatamente a mesma coisa.

O que um cronógrafo faz

É um cronômetro de mão embutido no relógio. Você aperta um botão, ele começa a contar, aperta de novo, ele para, e um terceiro toque zera.

O nome é literal. Segundo o levantamento técnico da Monochrome sobre cronógrafos, a palavra vem do grego chronos mais graphein, que é escrever o tempo.

E ela é literal por um motivo bom: o francês Nicolas Mathieu Rieussec, relojoeiro do rei Luís XVIII, criou um aparelho que escrevia com tinta nos mostradores giratórios para marcar o intervalo. O nome ficou, a tinta não.

Na prática de hoje, os contadores no mostrador acumulam minutos e horas enquanto o ponteiro central grande varre os segundos.

Cronógrafo não é cronômetro

Esta é a confusão mais cara da relojoaria, e os dois nomes parecem de propósito.

Cronógrafo é função. É o botão que mede intervalo. Qualquer relógio pode ter, e ele não diz nada sobre precisão.

Cronômetro é certificado. É um selo que atesta que o movimento foi testado e anda dentro de uma tolerância apertada. Ele não mede intervalo nenhum.

A página oficial do COSC põe o número na mesa: menos 4 a mais 6 segundos por dia, medidos em 15 dias, cinco posições e três temperaturas.

Um cronógrafo pode atrasar meio minuto por dia. Um cronômetro pode não ter botão nenhum. E existe relógio que é os dois, o que custa caro.

O que o selo cobra e o que ele garante está em o que é um cronômetro certificado.

Três contadores e dois botões. Isso é função, não é precisão.
Três contadores e dois botões. Isso é função, não é precisão.

O salto de preço, e o que ele compra

Levantamos o catálogo inteiro. São 256 referências de cronógrafo no Brasil, de R$ 2.652 a R$ 20.400, com mediana em R$ 6.018.

E aqui está o número que decide a compra:

Quartzo Automático
Referências 216 40
Entrada R$ 2.652 R$ 8.568
Precisão segundos por mês segundos por dia
Manutenção troca de pilha revisão completa

O mecânico mais barato custa 3,2 vezes o de quartzo, e os dois medem intervalo do mesmo jeito.

Pior: o de quartzo mede melhor. Ele erra segundos por mês contra segundos por dia do mecânico, e a régua está em quantos segundos um relógio pode errar.

Então o que os R$ 5.916 a mais compram? Nada de função. Compram o mecanismo em si, o som do botão e o ponteiro varrendo. É gosto, e gosto é motivo legítimo.

O que não é legítimo é vender isso como desempenho.

Por que o mecânico custa tanto

Vale entender, porque explica o abismo e ele não é margem.

Um cronógrafo mecânico é duas máquinas no mesmo espaço. O relógio normal precisa continuar andando enquanto a segunda máquina liga, desliga e zera.

E tem o problema de energia: quando o cronógrafo está ligado, ele consome muito mais que o relógio sozinho, o que exige mais do sistema de corda.

O calibre que resolveu isso para o mercado de massa é o Valjoux 7750, de 1973, desenhado por Edmond Capt. A história completa dele na Monochrome traz 30 mm de diâmetro por 7,9 mm, cerca de 45 horas de reserva e 100 mil unidades por ano já na largada.

Ele barateou a categoria com três escolhas: alavancas em vez de roda de colunas, peças em plástico técnico e molas simples. Foi o primeiro movimento de relógio desenhado com auxílio de computador.

Roda de colunas ou came

Aqui está o termo que aparece em anúncio caro e quase ninguém traduz.

Came é o sistema barato. Uma peça em forma de rampa move as alavancas quando você aperta o botão. É mais fácil de produzir, montar e consertar.

Roda de colunas é o sistema tradicional. Uma pequena roda dentada gira, e as alavancas caem entre os dentes. Exige fabricação precisa e custa mais.

A diferença que você sente é o toque do botão. Roda de colunas dá um clique firme e uniforme. Came dá um curso mais longo e menos definido.

A diferença que você não sente é qualquer coisa de precisão. Os dois medem igual.

Existe ainda a divisão entre integrado e modular. Integrado é o movimento que nasceu cronógrafo. Modular é um calibre comum com um módulo de cronógrafo montado por cima, o que é mais barato e costuma engrossar o relógio.

O que a complicação custa

Vale ser honesto, porque a conta não é só de dinheiro.

Ela engrossa o relógio. Módulo de cronógrafo empilha altura, e cronógrafo fino é raro e caro.

Ela lota o mostrador. Dois ou três contadores comem espaço e roubam legibilidade da hora, que é para o que você olha mil vezes por dia.

Ela adiciona manutenção. Mais peças móveis, mais desgaste, revisão mais cara. A conta está em quanto custa manter um relógio mecânico por 10 anos.

Ela quase nunca é usada. Essa é a parte que ninguém fala na loja. Pergunte a qualquer dono há mais de um ano quantas vezes ele apertou o botão.

E existe um detalhe que estraga relógio: deixar o cronógrafo ligado o tempo todo mantém a segunda máquina rodando, aumenta o consumo e acelera o desgaste. Ele não foi feito para ficar ligado.

O mecânico mais barato custa três vezes o de quartzo, e mede pior.
O mecânico mais barato custa três vezes o de quartzo, e mede pior.

Quem domina a categoria no Brasil

A distribuição diz muito sobre onde comprar.

Marca Refs O que ela traz
Tissot 78 a maior variedade, e o Valjoux no topo
Citizen 48 quase todo solar, a entrada da categoria
Certina 37 o DS-1 Chrono com Valjoux
Mido 20 o degrau de acabamento
Hamilton, Bulova, Seiko 42 opções pontuais

A Citizen sozinha segura o piso da categoria com cronógrafo solar, que nunca pede pilha, assunto de Citizen Eco-Drive vale a pena.

No topo, o Certina DS-1 Chrono usa um Valjoux e mais que dobra o preço da própria linha, como mostra Certina DS-1 vale a pena.

Qual comprar

Compre o de quartzo se você quer a função. Ele mede melhor, custa um terço e não pede revisão.

Compre o solar se manutenção te incomoda. Cronógrafo Eco-Drive nunca pede pilha e a categoria começa em R$ 2.652.

Compre o mecânico se o que te move é o mecanismo. Saiba que você está pagando pelo prazer e não pela medida.

Não compre nenhum se você nunca usou um cronômetro na vida. É a complicação com a maior distância entre desejo e uso.

Não compre se o relógio vai de camisa fechada. Cronógrafo é grosso e larga mal sob o punho.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre cronógrafo e cronômetro?

Cronógrafo é a função de medir intervalo, com botões. Cronômetro é um certificado de precisão. Um não tem nada a ver com o outro.

Cronógrafo de quartzo é pior que o mecânico?

Ele é mais preciso, mais barato e mais fácil de manter. O que ele não tem é o mecanismo, que é o que o mecânico vende.

Quanto custa o cronógrafo mais barato do Brasil?

Perto de R$ 2.652, num Citizen Eco-Drive solar. O mecânico mais barato do catálogo custa R$ 8.568.

O que é roda de colunas?

É o sistema tradicional que comanda os botões, com uma roda dentada onde as alavancas encaixam. Dá um toque melhor e custa mais que o sistema de came.

Posso deixar o cronógrafo ligado o tempo todo?

Pode, e não deveria. Ele consome mais energia e desgasta mais peças. Zere quando não estiver usando.

Cronógrafo pode molhar?

Depende do modelo, e nunca aperte os botões dentro d’água. A régua de água está em 30, 50, 100 e 200 metros.

O que fica

O cronógrafo é a complicação que mais gente compra e menos gente usa, e as duas coisas continuam verdade depois de cento e cinquenta anos.

Ele existe em 256 referências no Brasil, e a versão que mede melhor é a mais barata. Isso inverte a lógica de quase toda outra decisão deste blog.

Se você quer a função, o quartzo resolve por um terço. Se você quer o mecanismo, o preço é honesto e o produto é bonito.

O erro caro é comprar o mecânico achando que ele cronometra melhor. Ele cronometra pior, e cobra três vezes mais para isso.

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