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Sellita SW200: o motor suíço dentro de meio mercado

Maison Garde & Co. 7 min de leitura
Movimento automático suíço aberto sobre bancada de relojoeiro, com o rotor à vista

Se você está olhando um automático suíço de entrada que não é do Swatch Group, é bem provável que o motor dele seja este.

Existe um nome que aparece na ficha de dezenas de relógios suíços e que quase nenhum comprador brasileiro sabe ler.

Saber o que ele significa muda como você compara duas peças de marcas diferentes pelo mesmo preço.

O que é a Sellita

Não é uma marca de relógio. É uma fábrica que faz o motor e vende para quem monta o relógio.

Ela fica em Le Crêt-du-Locle, na Suíça, tem 850 funcionários e produziu 1,5 milhão de movimentos em 2022, segundo a visita da Monochrome à fábrica.

Isso a torna a maior fornecedora de movimento para marcas de fora do Swatch Group, atrás só da ETA, que hoje atende principalmente as marcas do próprio grupo.

E aqui está o detalhe que quase ninguém conta: a Sellita existe desde 1950, e passou os primeiros cinquenta anos apenas montando movimento dos outros. Ela só começou a fazer calibre próprio nos anos 2000.

De onde o SW200 veio

Esta é a parte que explica por que o movimento é tão parecido com o da concorrência, e ela é pública.

O ETA 2824-2 foi lançado em 1982 e virou o motor padrão do relógio suíço de entrada. Em 2002, duas coisas aconteceram no mesmo ano.

A primeira: as patentes dele expiraram. A segunda: Nicolas G. Hayek, então à frente do Swatch Group, anunciou que o grupo pretendia parar de fornecer esboços de movimento para empresas de fora.

A história completa está no levantamento da Monochrome sobre o ETA 2824.

O resultado era previsível. Meia indústria ficou sem motor e com o projeto do motor em domínio público, e a Sellita lançou o SW200 em 2007.

Em 2008 veio o SW200-1, com o perfil de dente de três rodas do sistema de corda redesenhado, o que o deixou mais resistente a choque e a desgaste. É essa versão que está nos relógios de hoje.

E tem uma diferença curiosa: o SW200 tem 26 rubis contra 25 do ETA, por causa de um rubi extra entre o tambor e a roda de coroa.

Vinte e seis rubis e quatro décimos de milímetro a mais que o original.
Vinte e seis rubis e quatro décimos de milímetro a mais que o original.

Onde ele aparece, com nome e marca

A lista é longa e cruza faixas de preço que não deveriam se encontrar.

Marca Onde ele está
Victorinox I.N.O.X. Mechanical
Oris Divers Sixty-Five e parte da linha Aquis
Christopher Ward C60 Trident Pro
TAG Heuer Calibre 5, em parte da produção
Sinn, Marathon, Baume & Mercier linhas de entrada

A ficha do I.N.O.X. Mechanical nomeia o calibre com todas as letras, o que é raro e honesto.

Existe um atalho para saber qual marca usa o quê no Brasil. Tissot, Certina, Mido, Longines e Hamilton pertencem ao Swatch Group e usam ETA, incluindo o Powermatic 80 que aparece em vários posts daqui.

Victorinox, Oris e Christopher Ward não pertencem ao grupo, e é aí que a Sellita entra. Saber isso te diz o que tem dentro antes mesmo de abrir a ficha.

O que ele faz e o que não faz

A ficha é modesta de propósito, e é isso que a torna confiável.

SW200-1
Diâmetro 26 mm
Altura 4,6 mm
Rubis 26
Frequência 28.800 alternâncias por hora
Reserva 38 horas
Funções horas, minutos, segundos, data

Trinta e oito horas é o número que mais importa e o que mais decepciona. Você tira o relógio na sexta à noite e no domingo de manhã ele já parou.

Compare com o Powermatic 80 da Tissot, que entrega 80 horas, ou com o H-50 da Hamilton, que entrega 80 também. A conta é simples: os dois atravessam o fim de semana e o Sellita não.

O ponteiro de segundos para quando você puxa a coroa. Isso deixa acertar o relógio no segundo exato contra o celular, e nem todo movimento dessa faixa faz.

A data troca rápido, sem precisar girar os ponteiros doze horas. Parece detalhe até você acertar o relógio depois de um mês parado.

E ele aceita corda manual, o que resolve a manhã de segunda sem ter que sacudir o relógio.

Os níveis de acabamento

Aqui está o que a marca quase nunca conta, e é a informação mais útil deste post.

O mesmo SW200-1 é vendido em níveis de acabamento diferentes, do mais simples ao regulado como cronômetro. A diferença está no balanço, na proteção contra choque e na precisão final.

Ou seja: dois relógios podem declarar “Sellita SW200-1” na ficha e não andar igual. Um pode errar oito segundos por dia e o outro dois.

A régua de precisão está em quantos segundos um relógio pode errar.

Na prática, quase nenhuma marca da faixa de entrada informa o nível. Quando ela informa, ou quando ela declara certificação de cronômetro, isso é sinal de que pagou pela versão de cima.

Trinta e oito horas de reserva. Ele não atravessa o fim de semana.
Trinta e oito horas de reserva. Ele não atravessa o fim de semana.

Por que isso é bom para você

Movimento de volume alto tem uma vantagem que movimento exclusivo não tem.

Peça de reposição existe. São milhões de unidades no mercado, o que significa que o componente está disponível e vai continuar disponível por décadas.

Relojoeiro treinado existe. Qualquer oficina séria no Brasil já abriu dezenas. Não é serviço de especialista, é serviço de rotina, e isso aparece no preço da revisão.

A conta de longo prazo está em quanto custa manter um relógio mecânico por 10 anos.

O que ele não dá é exclusividade. O mesmo motor está dentro de marcas que competem entre si, exatamente como o Miyota está dentro de meio mercado japonês, assunto de o movimento que está dentro de meio mercado.

O que fazer com essa informação

Três usos práticos, e o terceiro é o que economiza dinheiro.

Pare de pagar pelo mistério. Se duas marcas cobram preços muito diferentes e as duas usam SW200-1, a diferença está na caixa, no mostrador e no nome. Não está no que faz o relógio andar.

Some a reserva na conta. Trinta e oito horas é pouco para quem tem mais de um relógio. Se este vai ser o segundo, ele vai estar parado toda vez que você o pegar.

Pergunte o nível de acabamento antes de fechar. Vendedor que sabe responder está numa loja que conhece o produto, e a resposta muda quanto o relógio erra por dia.

E vale lembrar o outro lado: o SW200-1 dentro de um Victorinox de R$ 7.964 é o mesmo que está dentro de peças bem mais caras, o que faz do I.N.O.X. Mechanical uma das entradas mais baratas nesse motor.

Perguntas frequentes

O Sellita SW200 é bom?

É confiável, simples de consertar e usado por marcas de todos os preços. Não é um movimento sofisticado, e não tenta ser.

Ele é uma cópia do ETA 2824?

Ele nasceu do projeto do 2824-2 depois que as patentes expiraram em 2002, o que era legal. A Sellita mudou detalhes e acrescentou um rubi.

Qual a reserva de marcha dele?

Trinta e oito horas. É menos que o Powermatic 80 da Tissot e menos que o H-50 da Hamilton, que entregam 80 horas cada.

Qual é mais preciso, ele ou o ETA?

Depende do nível de acabamento de cada um, não da marca do calibre. Os dois são oferecidos em versões que vão do padrão ao certificado como cronômetro.

Dá para consertar no Brasil?

Dá, e é justamente a vantagem dele. É um dos movimentos mais comuns da relojoaria suíça, com peça disponível e mão de obra treinada.

Que marcas usam Sellita no Brasil?

Victorinox nos automáticos, além de Oris e Christopher Ward. As marcas do Swatch Group, como Tissot, Certina, Mido, Longines e Hamilton, usam ETA.

O que fica

O SW200-1 é o motor mais democrático da relojoaria suíça, e isso é um elogio e um aviso ao mesmo tempo.

Elogio porque ele funciona, tem peça e tem quem conserte. Aviso porque ele não é argumento de valor: quando duas marcas usam o mesmo calibre, o que você está comparando é tudo menos o movimento.

O que sobra depois de saber isso é uma conta bem mais difícil. Com o motor igual dos dois lados, o preço a mais de uma marca sobre a outra passa a ser inteiramente caixa, mostrador, garantia e nome.

Essas quatro coisas valem dinheiro de verdade. Só que elas valem valores muito diferentes para cada pessoa, e é aí que a compra deixa de ser técnica.

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