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Frederique Constant vale a pena? A suíça que a Citizen comprou

Maison Garde & Co. 10 min de leitura
Frederique Constant Classics de mostrador prata e pulseira de couro sobre linho claro

Ela ficou conhecida por fabricar o próprio movimento, e quase nada do que chega ao Brasil tem esse movimento dentro.

Existe uma marca suíça de vestir com 47 referências à venda no Brasil e nenhuma linha escrita sobre ela em português.

Ela tem uma história boa, um dono inesperado e uma pegadinha de ficha técnica que vale saber antes de gastar dez mil reais.

De onde a Frederique Constant vem

Ela é nova para os padrões suíços, e o nome dela é mais velho que a empresa.

A casa foi fundada em 1988 em Genebra por Peter Stas e Aletta Stas-Bax, um casal holandês. Não é linhagem de família relojoeira suíça de século.

O nome vem dos bisavós dos fundadores: Frédérique Schreiner e Constant Stas. E aqui tem uma ponte real com a relojoaria: Constant Stas fundou uma fábrica de mostradores em 1904.

A marca começou a desenvolver movimento próprio em 2001 e apresentou o primeiro Heart Beat de manufatura em 2004. Hoje ela declara 33 movimentos de manufatura.

E existe o fato que quase ninguém sabe: a Frederique Constant pertence à Citizen desde 2016. A japonesa comprou o grupo inteiro, e a operação continua suíça.

Isso a coloca na mesma casa das linhas que este blog acabou de cobrir, assunto de Citizen Promaster vale a pena.

As linhas que existem no Brasil

O catálogo por aqui é grande, caro e muito concentrado.

Linha Refs Faixa de preço O que é
Classics 38 R$ 8.160 a R$ 20.280 o de vestir, quase o catálogo inteiro
Highlife 4 R$ 16.932 a R$ 19.380 o esportivo de pulseira integrada
Outras 5 R$ 9.690 a R$ 19.380 edições e variações

São 47 referências, com mediana em R$ 11.220. Não existe Frederique Constant barato: o piso é R$ 8.160.

E repare numa linha que a tabela não mostra: a água vai de 30 a 60 metros. Isso não é descuido, é definição de categoria. É marca de vestir, e a régua está em 30, 50, 100 e 200 metros.

Dentro da Classics moram as duas coisas pelas quais a marca é conhecida: o Heart Beat, com o balanço à vista, e a fase da lua.

Trinta a sessenta metros. É marca de vestir, e ela nunca fingiu o contrário.
Trinta a sessenta metros. É marca de vestir, e ela nunca fingiu o contrário.

O que tem dentro, sem romance

Aqui está a parte que muda a compra, e ela é o motivo deste post existir.

A marca batiza os movimentos com prefixo próprio: FC-206, FC-235, FC-265, FC-303, FC-310, FC-335. Parece manufatura, e na maior parte do catálogo brasileiro não é.

A análise da Monochrome sobre o Classics Index Automatic escreve com todas as letras: o FC-303 é o nome interno do Sellita SW200, com 26 rubis, 4 Hz e 38 horas de reserva.

Os de quartzo seguem a mesma lógica, com base Ronda por trás do prefixo FC.

Isso não é fraude e não é escondido. A própria ficha de produto costuma declarar a base, e a mesma análise explica o porquê: usar movimento comprado em vez do calibre de manufatura é o que permite o preço.

O que muda para você é a leitura. Um FC-303 entrega as mesmas 38 horas de um Sellita qualquer, como mostra o motor suíço dentro de meio mercado.

Ou seja: os 33 movimentos de manufatura existem e quase nenhum chega aqui. O que você compra no Brasil é, na quase totalidade, um bom Sellita ou um bom Ronda com acabamento e nome suíço em cima.

Onde ela perde

Vale ser específico, porque é onde nasce o arrependimento.

A reserva é curta. Trinta e oito horas nos automáticos. Tirou na sexta à noite, parou no domingo. As irmãs do Swatch Group entregam 80 pelo mesmo dinheiro, assunto de Certina DS-1 vale a pena.

A água é baixa. Trinta a sessenta metros cobre chuva e pia. Não entra na piscina com tranquilidade e não deveria.

O preço de entrada é alto. Oito mil e cento e sessenta reais é o piso, e nessa faixa Tissot, Certina e Mido entregam mais número por real.

A marca é pouco conhecida no Brasil. Fora de círculo de entusiasta, ninguém identifica. Isso cobra na revenda, como explica relógio é investimento.

O calibre próprio quase não chega. É a maior distância entre a fama da marca e o que está na vitrine daqui.

O que ela faz bem

Sendo justo, porque a lista é curta e é real.

O acabamento de mostrador. É onde o dinheiro vai. Guilhoché, índices aplicados e impressão fina são consistentemente acima do que a faixa entrega.

Vale explicar o que é guilhoché, porque o termo aparece em toda ficha da marca e quase ninguém traduz. É um padrão geométrico gravado no metal do mostrador, feito com máquina, que muda de brilho conforme a luz bate.

Não é impressão nem adesivo. É relevo de verdade, e é por isso que o mostrador parece mudar de cor quando você gira o pulso. Numa faixa em que quase todo mostrador é pintado, isso separa na hora.

A espessura. O Classics Index fica em torno de 40 mm com perfil abaixo de 10 mm, segundo a Monochrome. Automático suíço fino é difícil de achar.

As duas complicações de vitrine. Fase da lua e balanço à vista por menos de dez mil reais é combinação rara, e as duas são o cartão de visita da casa.

A apresentação do Classics Heart Beat na Monochrome mede a peça em 40 mm por 10,5 mm com 50 metros, e explica que a abertura presta homenagem ao primeiro Heart Beat, de 1994.

Ela declara a base. Boa parte do catálogo traz o calibre e a origem escritos na ficha, coisa que a maioria das marcas omite. Isso merece crédito.

Vale abrir, porque é a única linha que foge de tudo que foi dito acima.

A Highlife é a esportiva de pulseira integrada da casa, e ela tem só quatro referências no Brasil, de R$ 16.932 a R$ 19.380. É o topo do catálogo.

O que ela traz de diferente é certificação. Duas das quatro saem COSC, ou seja, com o movimento testado e certificado como cronômetro por um instituto independente.

Isso é raro nessa faixa e muda o que você está comprando. Certificação de cronômetro é a única forma de saber que o relógio foi medido, e não só montado.

O que não muda é a água, que segue em 50 metros, e a espessura da conta: dezessete mil reais compra Longines HydroConquest com 300 metros e três tamanhos, assunto de Longines HydroConquest vale a pena.

Ou seja: a Highlife existe para quem quer o desenho de pulseira integrada com nome suíço e não quer Tissot PRX. É um público pequeno, e o catálogo brasileiro reflete isso com quatro peças.

O que muda por ela ser da Citizen

Vale abrir, porque a compra de 2016 assusta quem ouve pela primeira vez.

Não mudou o produto. A operação continua em Genebra, o relógio continua suíço e o mostrador continua sendo feito com o mesmo cuidado.

O que a compra trouxe foi estabilidade financeira e acesso à cadeia industrial de um grupo japonês grande, que fabrica movimento próprio em escala, como mostra Citizen Eco-Drive vale a pena.

Na prática isso importa para uma coisa só: assistência. Marca independente pequena some, e marca dentro de grupo grande tende a durar. Para um relógio que você quer usar por vinte anos, isso vale mais que o folclore da independência.

E existe a ironia que ninguém comenta: a marca suíça que ficou famosa por fabricar o próprio movimento hoje pertence à japonesa que fabrica movimento em volume muito maior.

Contra a vizinhança do mesmo preço

A comparação inevitável é com o que existe entre oito e doze mil reais.

FC Classics Longines Conquest Certina DS-1
Preço R$ 8.160 R$ 8.058 R$ 6.936
Reserva 38 h 72 h 80 h
Água 50 m 50 a 300 m 100 m
Calibre Sellita renomeado ETA refinado ETA Powermatic
Mostrador o melhor dos três bom bom
Nome no Brasil fraco forte fraco

A reserva é onde ela perde feio. Trinta e oito horas contra 72 e 80, pelo mesmo dinheiro ou mais.

O que ela devolve é mostrador e as duas complicações. A ficha da Longines está em Longines vale a pena.

A conta de dez anos

O preço de vitrine é a primeira parcela, e o mecânico cobra de novo depois.

Dez anos FC Classics Um quartzo suíço da faixa
Compra R$ 8.160 R$ 4.124
Manutenção 1 a 2 revisões completas 3 a 4 trocas de pilha
Custo do serviço alto, semanas na oficina baixo, feito na hora
Corda perdida toda segunda-feira nunca

A boa notícia está escondida no problema: como o motor é um Sellita comum, peça de reposição e relojoeiro treinado existem em qualquer lugar. A conta completa está em quanto custa manter um relógio mecânico por 10 anos.

Se o relógio tiver fase da lua, some um detalhe: ela precisa ser acertada toda vez que ele parar, e isso é mais chato que acertar a hora.

Trinta e oito horas. Ele para no domingo e você acerta tudo de novo.
Trinta e oito horas. Ele para no domingo e você acerta tudo de novo.

O que conferir antes de fechar

Quatro conferências, e a primeira é específica desta marca.

Confira a base do calibre. Pergunte se o FC do código é manufatura ou base comprada. A resposta muda o que você está pagando, e não muda a qualidade.

Confira a reserva. Trinta e oito horas é o padrão da casa aqui. Se você tem mais de um relógio, ele vai viver parado.

Confira a água. Trinta metros é comum na linha. É chuva e pia, não é piscina.

Confira se tem fundo de vidro. Boa parte da linha mostra o rotor pelo fundo, e é ali que você confirma o calibre com os próprios olhos em vez de acreditar no código impresso na caixa.

Confira se a complicação é a que você quer. Fase da lua e Heart Beat custam caro e são a razão de a marca existir. Comprar sem nenhuma das duas é pagar o preço dela sem levar o que ela tem de melhor.

Para quem ela faz sentido

Compre se mostrador é o que te move. É genuinamente o melhor acabamento de mostrador dessa faixa.

Compre se você quer fase da lua ou balanço à vista sem passar de dez mil reais. As duas estão em Heart Beat e em relógio com fase da lua.

Compre se você quer automático suíço fino de vestir. O perfil abaixo de 10 mm é raro.

Não compre se reserva de marcha importa. Trinta e oito horas perde para tudo que o Swatch Group vende no mesmo preço.

Não compre esperando manufatura. O que chega ao Brasil é quase todo Sellita e Ronda renomeados, e o preço já reflete isso.

Não compre se este vai ser o seu único relógio. Cinquenta metros e 38 horas de reserva é frágil demais para uma peça que precisa dar conta de tudo.

Perguntas frequentes

A Frederique Constant é uma marca boa?

É suíça, fundada em 1988 em Genebra, e faz relógio de vestir com acabamento de mostrador acima da média da faixa. Não é marca de tradição centenária e nunca disse que era.

A Frederique Constant é da Citizen?

É. A japonesa comprou o grupo em 2016, e a operação segue na Suíça. O produto continua suíço.

O calibre FC é próprio?

Depende da referência. A marca tem 33 movimentos de manufatura, e o que domina o catálogo brasileiro é base Sellita ou Ronda com prefixo FC.

Qual a reserva de marcha dela?

Trinta e oito horas nos automáticos de base Sellita, que são a maioria aqui. É menos da metade dos 80 horas de Tissot, Certina e Mido.

Qual a Frederique Constant mais barata do Brasil?

A faixa começa perto de R$ 8.160, num Classics Moonphase de quartzo. Não existe referência abaixo de oito mil reais.

Dá para nadar com ela?

Não com tranquilidade. A linha marca de 30 a 60 metros, que cobre chuva e lavar a mão. É relógio de vestir.

O que fica

A Frederique Constant é uma marca honesta com um problema de expectativa.

Ela entrega o melhor mostrador da faixa, duas complicações de vitrine por menos de dez mil reais e um perfil fino que quase ninguém consegue. Isso é bastante.

O que ela não entrega, aqui, é o calibre de manufatura que construiu a reputação dela. O que chega ao Brasil é Sellita e Ronda com prefixo FC, e o preço foi feito para isso.

Saber disso não estraga a compra. Estraga só a ilusão de que o código no movimento significa alguma coisa que ele não significa, e essa ilusão custa alguns milhares de reais.

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